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"Admito que certas vezes escuto cada frase de fazer inveja aos mais nobres poetas".
O telejornal do almoço avisara que a tarde seria com singelas pancadas de chuva no lado oeste da cidade. A vizinha do apartamento ao lado, discutia com seu mais novo namorado. Na rua da Alvorada algumas pessoas aglomeravam-se para assistir o resgate de um menino estudante atropelado. Debruçada sobre seus braços recebedores do forte sol que ultrapassava as nuvens ela apenas balançava a cabeça por não entender como nos últimos meses os índices de atropelamentos na rua aumentaram. A vizinha do apartamento de baixo gritava com seu filho de dois anos, criança chorosa, deve ser as famosas dores de ouvido. Dizia ela: - Você vai apanhar. Pare de chorar. Meu Deus. A imagino como um cão raivoso espumante pela boca. Confesso que escutar este tipo de coisa não era nada bom, especialmente para uma mulher que nos últimos anos passou a viver sozinha depois que o esposo arrumou um emprego no Japão e não mais voltou. E seus dois filhos em intercambio estavam distantes de casa.
Sempre que a encontro nos corredores do supermercado ela desvia seu olhar para não confrontar com o meu. Estes dias fiquei a observando e consegui analisar que seus olhos verdes e bonitos, agora tinham uma coloração mais para uma cor escura. As vizinhas a têm como assunto principal de suas tardes de ócio festivo de final de ano. Cada vez que a jovem senhora passa é um festival redundante de afirmações estapafúrdias. Não sei direto muito da vida dela, somente descobri seu nome dias atrás através do recebimento de uma correspondência enganada. Faz um certo tempo que não encontro mais notícias da mulher. Nem a folga das vizinhas permite mais comentários. Sempre que passo pela rua Alvorada olho em direção as cortinas brancas com detalhes azuis, mas sempre está fechada. A confusão no condomínio continua: crianças ainda tem dor de ouvido e cólicas, as discussões dos casais são cada dia mais constantes. Ultimamente prefiro permitir o silêncio em meu apartamento principalmente à noite para escutar melhor algumas discussões. Admito que certas vezes escuto cada frase de fazer inveja aos mais nobres poetas.
Ontem descobri que a jovem senhora saiu de seu apartamento, existe um acumulo de correspondências congestionando a caixa de coleta. Mas seus filhos distantes e seu marido no outro lado do mundo será que não sabem para onde a mãe e esposa foi? Fico atentado em subir até o décimo primeiro andar. Mas tenho medo de apertar a campainha e sentir que aquela jovem senhora está escondida na tentativa de escrever o tempo de maneira diferente.
Hoje o dia começou diferente, a fina chuva transforma as calçadas da Rua Alvorada em mais bonitas. Daqui a pouco vou tomar um banho e começar verdadeiramente o dia. Agora escuto um mais um pouco da vida que acontece sobre a rua com cara de avenida.
criado por Bruno Scuissiatto
19:27:49