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"o pudor sempre é esquecido em nome das boas maneiras, mas nunca é deixado de lado quando é exigido em pensamentos".
Maria Clara sempre que podia passava na panificadora na volta do trabalho e comprava pães franceses para não precisar sair na manhã seguinte para comprá-los. Costumava chegar do trabalho por volta do noticiário das 19 horas, vez em quando perdia as noticias por esbarrar em conversas descontraídas com as vizinhas e conhecidos de bairro.
Ao adentrar sua confortável casa na Alameda dos Pinheiros primeiramente jogava sua bolsa sobre o sofá e ligava o televisor no canal em que o apresentador era mais agradável que a noticia. Aumentava o volume, permitindo-se assim lavar o rosto tranquilamente e não perder nenhuma matéria do noticiário. Entre uma noticia e outra conseguia preparar o jantar e programar o próximo dia.
Tudo acontecia em perfeita sintonia, sabia escolher suas renuncias e preparar o famigerado espírito combalido de tanto sofrer nos últimos anos. Quando sem querer escutou em uma propaganda uma frase que falava sobre o futuro e do futuro quis fugir, mas não encontrou saída, foi levada pelas lembranças para o mundo em que foi feliz. Neste tempo suas lembranças eram limpas e casuais, nada parecia lhe tirar o sorriso estampado em todas as manhãs. Mas diferente daquele tempo parecia querer enfrentar a dor, que nunca ousou enfrentar.
Forte demais não permitiu as amarguras estragarem seus desejos, jurava a felicidade ser sua companheira, mesmo que algo acontecesse e a fizesse por momentos pensar de forma diferente. Relutou sobre tantas transformações de pensamentos, pessoas e atitudes insanas. A perturbação sempre se desprendia do suposto jeito de sentir o mundo.
Sentada na mesa enquanto jantava voltou seu olhar para o calendário e começou a contar quantos dias iria precisar para poder estar distante de toda aquela ameaça de bem estar.
Sem muito forçar descobriu que o homem com quem um dia trocou palavras de amor estava casado e distante da cidade onde morava. Ao mesmo tempo sentia que ficar presa na vontade sentimental não era uma maneira mais eficaz de ambicionar a felicidade.
A partir daquele instante Maria Clara descobriu que o pudor sempre é esquecido em nome das boas maneiras, mas nunca é deixado de lado quando é exigido em pensamentos.
O mundo começava diferente para ela, durante suas jornadas de trabalho e convívio com as pessoas do seu circulo de amizades era tudo correto, talvez fosse uma forma de esconder dos seus sentimentos a carência de nunca conseguir viver o amor novamente. Mas sempre que entrava na sua casa na Alameda dos Pinheiros voltava a sonhar com os embalos daqueles sentimentos e fazia de tudo para voltar a recordar tudo que um dia a presença trouxe em sonho. Promete uma tarde dizer tudo o que sente sem precisar assinar contrato, até lá o pudor continuará a ser exclusividade dos pensamentos...
"Admito que certas vezes escuto cada frase de fazer inveja aos mais nobres poetas".
O telejornal do almoço avisara que a tarde seria com singelas pancadas de chuva no lado oeste da cidade. A vizinha do apartamento ao lado, discutia com seu mais novo namorado. Na rua da Alvorada algumas pessoas aglomeravam-se para assistir o resgate de um menino estudante atropelado. Debruçada sobre seus braços recebedores do forte sol que ultrapassava as nuvens ela apenas balançava a cabeça por não entender como nos últimos meses os índices de atropelamentos na rua aumentaram. A vizinha do apartamento de baixo gritava com seu filho de dois anos, criança chorosa, deve ser as famosas dores de ouvido. Dizia ela: - Você vai apanhar. Pare de chorar. Meu Deus. A imagino como um cão raivoso espumante pela boca. Confesso que escutar este tipo de coisa não era nada bom, especialmente para uma mulher que nos últimos anos passou a viver sozinha depois que o esposo arrumou um emprego no Japão e não mais voltou. E seus dois filhos em intercambio estavam distantes de casa.
Sempre que a encontro nos corredores do supermercado ela desvia seu olhar para não confrontar com o meu. Estes dias fiquei a observando e consegui analisar que seus olhos verdes e bonitos, agora tinham uma coloração mais para uma cor escura. As vizinhas a têm como assunto principal de suas tardes de ócio festivo de final de ano. Cada vez que a jovem senhora passa é um festival redundante de afirmações estapafúrdias. Não sei direto muito da vida dela, somente descobri seu nome dias atrás através do recebimento de uma correspondência enganada. Faz um certo tempo que não encontro mais notícias da mulher. Nem a folga das vizinhas permite mais comentários. Sempre que passo pela rua Alvorada olho em direção as cortinas brancas com detalhes azuis, mas sempre está fechada. A confusão no condomínio continua: crianças ainda tem dor de ouvido e cólicas, as discussões dos casais são cada dia mais constantes. Ultimamente prefiro permitir o silêncio em meu apartamento principalmente à noite para escutar melhor algumas discussões. Admito que certas vezes escuto cada frase de fazer inveja aos mais nobres poetas.
Ontem descobri que a jovem senhora saiu de seu apartamento, existe um acumulo de correspondências congestionando a caixa de coleta. Mas seus filhos distantes e seu marido no outro lado do mundo será que não sabem para onde a mãe e esposa foi? Fico atentado em subir até o décimo primeiro andar. Mas tenho medo de apertar a campainha e sentir que aquela jovem senhora está escondida na tentativa de escrever o tempo de maneira diferente.
Hoje o dia começou diferente, a fina chuva transforma as calçadas da Rua Alvorada em mais bonitas. Daqui a pouco vou tomar um banho e começar verdadeiramente o dia. Agora escuto um mais um pouco da vida que acontece sobre a rua com cara de avenida.