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o céu é limpo e estrelado
as almas são curtas e empoeiradas
Entrelaçada nos lençóis quentes do seu corpo aquecido em mais uma noite de inverno, consome os últimos minutos antes de desprender-se do conforto da cama. O dia é com vento forte, que leva as folhas para desfilar pelas calçadas alheias. Enquanto tomava um banho demorado, era espectadora da forma como a água escorria pelo ralo. No caminho entre o banheiro e o seu quarto, colocou-se a olhar pela janela do corredor, decorada com quadros coloridos e fotos de lembranças da família. Viu como a cidade caminhava para mais um começo de dia. Já vestida encontra o espelho a sombra do desejo em percorrer formas de explorar o mundo insistente do seu pensamento. A dor da rotina escondia a falta de andar por ruas diferentes no centro da cidade. Cada passo diário voltava-se a percorrer arduamente a estagnação. Entre seus sonhos derivados, resolvou abdicar do pecado. Sem permitir chance ao pensamento em retornar, partiu sem tomar seu café da manhã. A rotina seria passada, distante daquilo que gosta, caminhou até a banca de jornais no meio da praça. Acirrou o descontentamento ao deparar-se com as manchetes que as letras brilhavam no enunciado. O último trocado do teatro. Timidamente abriu um sorriso. Muitos transeuntes leitores de jornais desconfiaram daquele sorriso. Mas o que importava, eles não sabiam nada a respeito da realidade. O percurso até o seu trabalho era distante oito quadras curtas do centro da cidade. Seria um caminho de certo ponto rápido, não fossem as insistentes paradas em cada esquina para reparar a abrangência do edifícios que escondiam o sol e deixavam mais fria aquela avenida. Após muitos olhares curiosos chegou ao trabalho. O vaso com flores amarelas a fez divagar mais longe da exatidão das planilhas e ligações que a esperavam. Encoberta pela sinceridade pensou em pedir demissão do emprego onde era funcionária havia trinta e oito meses. Antes de finalizar a idéia, recebeu a chegada de uma colega obstruída com problemas de família. Com palavras comuns aprendidas em conversas diárias com diferentes pessoas, sentiu conseguir melhorar a imagem da colega nos problemas nada exemplares.Costumeiramente presente em boa parte do tempo as palavras doces muitas vezes desprediam-se do conceito do real impresso dos livros. Ao voltar para a lembrança da manchete sentiu seus olhos brilharem. A vontade de pintar os olhos, espalhar pó pelo rosto, nunca sentiram-se tão próximas. O cheiro de tablado, os passos encenados, a cortina derrubada e os versos declamados estavam todos empoeirados dentro da sua alma. Hoje resolveram acenar para a liberdade.
Amor
quando existe outro amor
continua a ser amor
em outras madrugadas.
Distrair o inverno sem nenhuma métrica
Ri da vida
como não tivesse acordo com a saudade.
Mostra ao mundo
como representar serenidade.
Lê para ouvidos calados
um pouco mais da idade.
em conjuntos de frases curtas e longas constroí um suposto mundo, que filma cenas curtas da primeira parte de um Amor que chega sem aviso.
... o céu da cidade abre sinceras nuvens que embalam versos declamantes do poeta em questão. Onde esconde-se os medos, derrama-se também sinceridade apaixonadas de perguntas sem muitas respostas. A porta arranha o som do vento em acalantar lembranças e mostrar bem o caminho pelo qual prosseguir o trem. Sentado na poltrana 23, colado a janela, acende um cigarro, degusta o trago, conversa com a solidão vaga daquele vagão. Olha para as estrelas como pedisse perdão para o abismo de estar perto da onde nunca deveria sair. Rasga um pedaço do papel onde anotou um frase que gostou, e escreve, uma outra para não deixar esquecer, pretende entregar no momento em que chegar á cidade. Na idade em que encontra-se faz desenhos de casas e flores, todas com um bonito sol estampado no lado esquerdo da folha. Aqueles olhinhos castanhos brilham quando lembra dos ideais mais felizes. É perto do meio dia e após tantas horas encenando palavras, chega ao destino final. Pé esquerdo á frente, olhar para o céu encoberto, um respiro forte e uma prece necessária. Desce a rua com passos de certa forma ligeiros. Avista uma multidão de crianças, todas acabaram de sair da escola. No meio de tantos alunos percebeu quem seria o motivo desta sua vinda à cidade. Arco vermelho no cabelo, brincos pequenos e um sorriso capaz de iluminar o céu encoberto. De longe imaginou-se segurando aquelas pequenas e delicadas mãos. Lembrou da figura da sua mãe, o chamando entre os amigos na volta da escola. O máximo que atingiu foi passar ao seu lado e escutar o som doce sainte da fala. Sentiu-se bem, mas precisava mais. Aquilo somente não o satisfazia. Mas naquele momento foi seu único alento para creditar a felicidade de assistir sua filha na volta da escola ...
[ Avenida movimentadissima, 7 horas, personagem 1, vestida de guarda-pó branco com nome bordado no bolso á direita]
Atendente de fármacia da Avenida 25 de março. Sempre corre para conseguir pegar o último ônibus depois do corriqueiro café da manhã. Outro dia perdida entre as esquinas das duas Marechais, percebeu quanto a cidade cresceu. Velhinhas conversam, jogatinas embutidas, velhos malandros desfilam e algumas crianças fazem dos minutos antes da entrada na sala de aula, um verdadeiro recreio dissipado. Cumpre sua jornada de trabalho diariamente. Tem cargo de atendente e destaca-se pela familiaridade com os clientes. Sabe as mais diferentes histórias, certas vezes, enxerga-se na própria história. A última foi da mulher que não sabia mais controlar o ronco do marido. Preferia mantê-lo acordado com fantasias enciumadas sob a realidade. O alento do trabalho não oferecia oportunidade para conseguir ultrapassar a barreira daquele balcão branco gelo, cheio de remédios, tabelas de comprimidos e folders promocionais. Ali, comumente sempre encontrava uma mulher, ainda jovem, que sempre entrava na farmácia para pesar-se. Vai ver é uma pessoa entediada com o peso, apenas mais uma, pensou.
[Casa de esquina, na rua paralela á Avenida 25 de março, personagem 2, vive a vida diária durante as noites. Olhos costumadamentes pintados, lábios contornados e brincos de argola]
Não sabe o motivo do sumiço de mais um par de brincos. Desde que mudou-se para aquela pensão, além dos incomodos com os insetos, também começou a sofrer com a vida em meio a tanta gente diferente. Existe indiferença entre os moradores. A noite esticada na cama, tinha que usar seu fone de ouvido. Não conseguia dormir com os ruídos das camas barulhentas com hóspedes secretos. Outra manhã com os olhos cansados de artefatos mimados de algumas senhoras vizinhas, resolveu mudar o turno do trabalho. Foi trabalhar nas madrugadas da cidade. Aos poucos descobriu o quanto é superficial e vago a vida de ser namorada afastada. O dinheiro que entrava facilmente, era deixado no caixa da fármacia. Apegou-se á viver baseada em receitas de emagrecimento. Nunca conseguia viver mais de dois dias sem contar os trocados, sobras do trabalho.
[Fármacia, manhã, por volta das 10:12]
Entre um atendimento e outro sobrava tempo para percorrer as linhas do imaginário. Voltava-se para a vida simples. Pensava em ser diferente, quem sabe utilizar a experiência de atendente e ganhar uma independência financeira maior. O maior opositor da mudança era seu espírito pudico.
[ Farmácia, hora do almoço, por volta do 12:30]
Cabelo desgrenhado, óculos escuros, a menina pesa-se mais uma vez, mas compra também um inibidor de apetite. Neste instante inaugura-se o imprevisto acanhado.
Somente isto?
Sim, aliás você sabe de algum remédio indicado para insônia?
Insônia. Bem para insônia, temos ...
Obrigado, não precisa mais.
Apenas o inibidor.
R$17:28
Na saida a menina desfila seu glamour estampado em um vestido tão casto. A cena desperta a libido da atendente em mudar sua vida, talvez, nos moldes da sua última cliente.
[Pensão, 12:53. Olhando a cidade pela janela]
Preciso mudar a minha vida!
Acabei encontrando um bom exemplo. A atendente de farmácia é formidável, tem vida digna, trabalho valorizado e ainda dorme durante a noite.
Enquanto o céu da cidade desprendia-se de mais um dia de sol as duas personagens percorriam destinos nada convicentes com seus ideais psicológicos. A noite chegava ao mesmo tempo, tanto na frente do espelho no banheiro da pensão, como no ponto congestinado do ônibus.
O vestido agora é mais justo e colorido.
E o sono ultrapassava a fronteira antes de mais um dia começar.
Ao contrário a vida encarrega-se de realizar fatos.