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a escuto
como quem faz uma prece de silêncio.
a vejo
sinceramente, um espelho ao avesso
com o rosto voltado para você mesmo.
a sinto
quando não mais minto
para mastigar a inocência.
Cansada e fustigada de tanta violência em casa, Clara resolveu mudar. Por mais que se mudar fosse uma atitude incerta demais, ela precisava de uma chance para recomeçar distante de todos. As longas caminhadas pelas ruas infinitas da cidade a fizeram pensar inúmeras vezes em voltar para o capricho inocente do lar. A vida não estava fácil, a situação caótica do mercado de trabalho, a falta de experiência, e o pouco conhecimento do centro da cidade, a levaram a suspender suas tentativas em atração para não precisar mais se perder. Mesma contraria retornou para sua casa.
Os ecoantes gritos do seu pai, e a harmônica submissão de sua mãe, a faziam ver como a vida não tinha nenhum argumento para ser inocente. Trancada em seu quarto, escutou mais algumas sessões extras de discussões familiares. A rotina em sua casa era assim.
O mundo adolescente se compôs contrário a sua singularidade de sempre imaginar a vida sem plural de acontecimentos. Na rua sempre encontrava oportunidades que vinham de homens não muito interessados na experiência, ou falta dela. Os detalhes de sua pele clara, seus olhos castanhos claros e cabelos negros e lisos ocultavam as outras habilitações. Clara presenciou cada vez mais homens dispostos e serem empregadores com mais benefícios sobre a funcionária.
O tempo passou, seu pai e seus gritos cada dia mais desafinados, não ecoavam tanto dentro de casa. Sua mãe agora já conseguia evocar sua opinião, principalmente nos assuntos que envolviam a filha. Clara já conseguira um emprego, conseguia instabilidade para morar sozinha e não precisar presenciar todas aquelas imagens e sons que a maltratavam diariamente.
Aqueles belos olhos castanhos judiaram bastante de vários homens, mas especialmente em um, ele foi fundamental para mudar toda a história. João Carlos é um rapaz recém chegado de uma cidade serrana e é estudante de direito. Residente nas proximidades da universidade, acaba rendendo-se as festas e encontros universitários. Em uma delas, conhece Clara e naquele instante nada mais tinha valor. O conhecer arrebatador de João é apenas visual, não chegou a proferir uma única palavra. Mas apaixonado e perdidamente extasiado com o belo retrato construído da composição de Clara, ele passou a viver cada dia mais a imaginando.
João não sabia, mas Clara nestas alturas já tinha marido, e estava com um bebê a tira colo. Neste intervalo de lembranças a viu, naquele instante o mundo parou e sorriu delicadamente. João aproximou-se e disse:
__ Oi. Tudo bem?
__ Sim, vou bem.
__ Clara?
__ Sim e você?
__ João
__ Belo nome, mas não sei quem é você?
Neste momento João sentiu que tudo o que sentia era puro delírio imaginário de uma paixão visual. Apenas despistou, inventou uma mentira qualquer e seguiu seu rumo.
O ano passou, a estação mudou, mas Clara continua sofrendo as conseqüências de casar e ter que agüentar o autoritarismo do casamento. Seria o presente repetindo os momentos do passado. Certa noite lembrou-se que o nome do seu segundo filho será João. E não sabe o real motivo.
[...]nada queria além de entender a solução da solidão impiedosa em aparecer."
Foi apenas um olhar atento sobre os telhados das velhas casas no centro de Curitiba. Ali nas imediações, encontravam-se os redutos de pessoas distantes de presenciarem a amadora felicidade, de encontrar abraços, aliás, abraços recebiam, vez em outra, de alguma informalidade casual.
O telefone já tocara muitas vezes, todos eram apenas especulações matinais, nada resolvia para concluir, que os fatos com prazo vencidos, tinham mais algumas horas de acréscimo. Resolveu não atender mais o telefone naquela manhã, saiu com passos mais rápidos que um cão desesperado atrás de seu dono.
No instante anterior a sua decisão escutou uma conversa de pessoas distraídas sobre o tempo ocioso de estar na procura de um filme fora de catalogo. Esta conversava ecoava em sua cabeça, que nada queria além de entender a solução da solidão impiedosa em aparecer.
Escutou um ruído de um carro que derrapou no asfalto quente, a rua tumultuada de gente apressada, as lojas com sua roupas desbotadas, e as calçadas úmidas do calor, tudo isso, foi motivo suficiente para voltar para o silêncio dos seus momentos. Antes de voltar para o seu apartamento, resolveu comprar um suco de laranja.
O apartamento estava com as janelas fechadas, e os urubus ilustravam os telhados das velhas casas. Sem pedir licença para si mesmo, abriu as janelas ferozmente. Despistou o olhar e após olhar atentamente os telhados, e os prédios vizinhos, resolveu contorna-los e se fixou a olhar os carros que passavam em uma velocidade alta, naqueles momentos, talvez fosse melhor atender ao telefone.
A campainha tocou, nada seria tão injusto, como uma visita naquela hora, mas resolveu atender a porta. Não foi nada além de um aviso da portaria sobre a reunião do condomínio. Sentiu-se aliviado em rapidamente poder voltar para seu próprio universo.
A televisão ligada foi sinal que a solidão começava a preocupar, o sofá espaçoso tinha lugar de sobra, e nem um comentário tinha direito de fazer. Desistiu de continuar em frente ao televisor. Encaminhou-se para o quarto, que ficava no sentido oposto da janela das paisagens dos telhados. Sem perceber pegou-se a olhar perdidamente o os pertences bagunçados, a cama vazia, lençol desarrumado e, o único travesseiro atravessado. O guarda roupas ainda sustentava lembranças de passados recentes.
A partir daquele dia, não pensou mais em conseguir apenas olhar os velhos telhados e os carros apressados nas avenidas.
"prazer foi omitir a mentira disfarçada nas primeiras tardes de verão"
[...] Com o acumulo da água das últimas chuvas fortes de verão, o caos se perverteu para amassar a fatia mais insana do pensares mais humanos. O latido do cachorro afônico, após uma noite de festas revela o quanto os quereres foram mais insanos. Prazer foi omitir a mentira disfarçada nas primeiras tardes de verão. Sentou-se para olhar a chuva, deixou a água passar embaixo dos seus pés, com a mão esquerda segurava o guarda-chuva, e a mão direita, pinçava um cigarro de filtro fino, herança esta oriunda dos filmes britânicos da década passada. Os olhos enxergam mais que simples imagens, percorrem as pernas, encantos e pudores iconoclastas da modernidade. Logo sem pedir licença, nem entender muito de progresso, chega um senhor, que pede um cigarro, sem muito social, solta o guarda-chuva e busca a carteira e entrega-o. Tinha certeza que o momento era único, e naquele plano de chuva, guarda-chuva, cigarro, caos e modernidade, o retrato figurava como resultado de ser cena da realidade. Não pode continuar sentado, a chuva aumentou a força, e os deveres o recrutavam para mais uma tarde. Após, dentro de casa, sentiu, que aquela cidade não era seu lugar, precisava logo mudar de ares, para não enfartar.
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Não mudou, apenas começou, diferente da chuva passada, agora faz retratos e desenha a realidade.
"o pudor sempre é esquecido em nome das boas maneiras, mas nunca é deixado de lado quando é exigido em pensamentos".
Maria Clara sempre que podia passava na panificadora na volta do trabalho e comprava pães franceses para não precisar sair na manhã seguinte para comprá-los. Costumava chegar do trabalho por volta do noticiário das 19 horas, vez em quando perdia as noticias por esbarrar em conversas descontraídas com as vizinhas e conhecidos de bairro.
Ao adentrar sua confortável casa na Alameda dos Pinheiros primeiramente jogava sua bolsa sobre o sofá e ligava o televisor no canal em que o apresentador era mais agradável que a noticia. Aumentava o volume, permitindo-se assim lavar o rosto tranquilamente e não perder nenhuma matéria do noticiário. Entre uma noticia e outra conseguia preparar o jantar e programar o próximo dia.
Tudo acontecia em perfeita sintonia, sabia escolher suas renuncias e preparar o famigerado espírito combalido de tanto sofrer nos últimos anos. Quando sem querer escutou em uma propaganda uma frase que falava sobre o futuro e do futuro quis fugir, mas não encontrou saída, foi levada pelas lembranças para o mundo em que foi feliz. Neste tempo suas lembranças eram limpas e casuais, nada parecia lhe tirar o sorriso estampado em todas as manhãs. Mas diferente daquele tempo parecia querer enfrentar a dor, que nunca ousou enfrentar.
Forte demais não permitiu as amarguras estragarem seus desejos, jurava a felicidade ser sua companheira, mesmo que algo acontecesse e a fizesse por momentos pensar de forma diferente. Relutou sobre tantas transformações de pensamentos, pessoas e atitudes insanas. A perturbação sempre se desprendia do suposto jeito de sentir o mundo.
Sentada na mesa enquanto jantava voltou seu olhar para o calendário e começou a contar quantos dias iria precisar para poder estar distante de toda aquela ameaça de bem estar.
Sem muito forçar descobriu que o homem com quem um dia trocou palavras de amor estava casado e distante da cidade onde morava. Ao mesmo tempo sentia que ficar presa na vontade sentimental não era uma maneira mais eficaz de ambicionar a felicidade.
A partir daquele instante Maria Clara descobriu que o pudor sempre é esquecido em nome das boas maneiras, mas nunca é deixado de lado quando é exigido em pensamentos.
O mundo começava diferente para ela, durante suas jornadas de trabalho e convívio com as pessoas do seu circulo de amizades era tudo correto, talvez fosse uma forma de esconder dos seus sentimentos a carência de nunca conseguir viver o amor novamente. Mas sempre que entrava na sua casa na Alameda dos Pinheiros voltava a sonhar com os embalos daqueles sentimentos e fazia de tudo para voltar a recordar tudo que um dia a presença trouxe em sonho. Promete uma tarde dizer tudo o que sente sem precisar assinar contrato, até lá o pudor continuará a ser exclusividade dos pensamentos...